T.D.A.H. X PRECONCEITO  

                      Estudos recentes mostram, que um dos maiores entraves para o tratamento do T.D.A.H. e suas CO-MORBIDADES, é o PRECONCEITO. Para que o tratamento seja eficaz, seguindo os critérios preconizados, pelos estudos feitos por um grupo consorciado, envolvendo várias universidades americanas (05) e uma universidade canadense, que é o estudo MTA, o PRECONCEITO tem que primeiramente ser amenizado. Neste aspecto, o ACHISMO não tem vez, pois os critérios são voltados para a medicina baseada em evidencias, onde se procura seguir as diretrizes da associação americana de psiquiatria e a associação americana de pediatria, como órgãos credenciados, e que sob o ponto de vista científico, dão suportes e respaldos a todas tecnologias e pesquisas voltadas para o tratamento do T.D.A.H. e suas co-morbidades, que inclusive, não são exceções, mas sim regra, as co-morbidades no T.D.A.H.

                       Mesmo nos paises desenvolvidos, o PRECONCEITO, responde por uma significativa parcela de pacientes que deixam de receber o tratamento precocemente e não se beneficiam do conjunto de ações, como a farmacopsicoterapia, a psicoterapia cognitivo-comportamental, a orientação a pais e escolas, formando assim com este quarteto de ações, o suporte necessário para o tratamento do T.D.A.H. dentro do que se conhece até o momento como eficiente, ficando, a intervenção de outros profissionais, restrita a uma pequena parcela de pacientes.           

                       Obviamente, que o PRECONCEITO, está diretamente ligado a própria história da SAÚDE MENTAL, onde há menos de duas décadas, os pacientes com patologias  mentais, não tinham uma abordagem clinica e terapêutica digna, porem a psiquiatria evoluiu como nunca nestas últimas décadas, sustentada pela evolução da própria NEUROCIENCIA,mudando completamente os rumos da saúde mental. Contudo, ainda é muito mais estigmatizante ter uma depressão, do que ser portador de diabetes ou hipertensão arterial, pois na história da medicina, aquilo que vem da CABEÇA ou do CÉREBRO dos indivíduos, é certamente muito mais preconceituoso. Por isto, ao adiministrarmos um anti-hipertensivo ou a insulina para um paciente hipertenso ou diabético, a aceitação é bem maior do que passar um neuroestimulante para uma criança desatenta ou hiperativa. Observamos inclusive, que um indivíduo quando pretende agredir de forma contundente um outro indivíduo, sem lhe provocar danos físicos, ele procura como órgão alvo a ser atingido, o cérebro do outro, não em sua estrutura motora, mas sim em sua estrutura psíquica e intelectual, onde certamente vai ter uma repercussão maior.

                         Um outro aspecto que deve ser levado em consideração é o cultural. Nos países desenvolvidos, principalmente nos E.U.A., o paciente ao ser medicado ou ao receber uma intervenção médica, ele interroga sobre a evolução da doença e o resultado que será obtido com o tratamento, preocupando por último com os efeitos colaterais dos medicamentos. Em outras palavras, a preocupação prioritária é com a doença.Na América Latina, a preocupação primeira é com os efeitos colaterais das medicações. Neste sentido, temos que entender, que não apenas as mães e pais são receosos quanto a possibilidade de seus filhos tomarem REMÉDIO PARA O CÉREBRO, o que de certa forma entendemos, mas em nosso meio, é muito comum que até profissionais da área de saúde, relutem em admitir, que teremos uma repercussão muito mais GRAVE, no não tratamento adequado de um paciente T.D.A.H., do que tratá-lo de forma consciente e criteriosa, observando atentamente o conceito CUSTO  x  BENEFICIO e procurando dar para este paciente um tratamento correto, para um transtorno NEURO-COMPORTAMENTAL, com estudos e pesquisas muito mais extensas e seguras, do que a própria DEPRESSÃO, segundo relatos da Associação Médica Americana.

                            No tocante ao PRECONCEITO, um dos alvos mais atingidos é a FIGURA DA MÃE, que é cobrada pelo marido em relação ao desajuste do filho ou da filha, que se for T.D.A.H. desatento, não quer nada com nada, a culpa é da mãe. Em se tratando de um T.D.A.H. hiperativo-impulsivo ou tipo combinado, também é a mãe a responsável por não saber dar limites e educar o seu desastroso filho ou filha.Se vai mal na escola, a mãe novamente é a responsável pelo insucesso do filho ou filha, pois não cobra do mesmo esforço e responsabilidade.Quanto aos parentes próximos, alegam que a mãe não sabe educar o seu filho.Na escola é a mãe que recebe as intimações para conversar sobre o filho, que esta criando problemas com professores, colegas, etc. Isto prossegue, numa verdadeira via crucis, até a avó entrar na cena, alegando, que em sua época as coisas eram resolvidas de outras formas, dizendo que isto é falta de umas PORRADAS, pois cacete não é santo, mas faz milagres. Parece até que este filho só tem mãe, porque a figura do pai encontra-se fora do contexto desta família, em termos de cobranças. Os vizinhos aconselham a procurar uma sessão de DESCARREGO ou ouvir o que os ORIXÁX tem para dizer. Por aí, a mãe trilha numa verdadeira agonia, sendo responsabilizada por todos ônus, que o filho T.D.A.H. contabiliza. No final, quando procura um profissional para cuidar de seu filho, corre o risco de ouvir do profissional que seu filho não tem nada, e que deveria por LIMITES ao mesmo e aprender a ser mãe, pois esta a procura de um bode expiatório para justificar a sua incompetência como mãe. E quando o diagnóstico é confirmado, vem outra tormenta, que é convencer a avó, tios, vizinhos, e o pai, que a maioria das vezes, também é T.D.A.H. e cheio de co-morbidades, dentre elas a de opositor desafiador, de que o seu filho precisa de tratamento. Neste momento, o peso da responsabilidade, que preconceituosamente, foi depositada na pobre coitada da mãe, já é suficiente para que a mesma tenha no mínimo uma depressão.

                            Outro aspecto, que sempre se faz necessário entender, é que a repercussão e o impacto do T.D.A.H.na vida familiar, social, afetiva, acadêmica e profissional do individuo, é de tal importância, que não podemos permitir, que milhares de pessoas, que não tiveram a oportunidade de um DIGNÓSTICO e TRATAMENTO, por puro preconceito, venha ter uma perspectiva de vida sombria ou duvidosa.

                             Analisando a repercussão do T.D.A.H. na vida acadêmica, entendemos o sofrimento dos pacientes em decorrência do preconceito de uma forma global. Mas é justamente na escola, que deveria ser um ambiente seguro, que representasse a extensão do lar, é que estas crianças sofrem com o preconceito, pois exportas as criticas que partem de todos os lados, estas pequenas criaturas, começam a fazer um juízo terrível do aprendizado, que deixa de ser um processo prazeroso, para se constituir numa verdadeira tortura. Por outro lado, a família, que cobra um rendimento destas crianças, incompatível com sua condição de produzir, se não forem tratadas, em decorrência de sua distratibilidade, hiperatividade e impulsividade, levando estas crianças a perda de sua auto-estima, que somados as criticas de professores, que de um modo geral, não tem o menor conhecimento sobre o assunto, a pressionar ainda mais estas crianças, levando-as cada vez mais ao insucesso acadêmico e a perda do interesse em aprender, tornando o seu futuro pouco promissor.

                               No passado, estas crianças consideradas pelos seus pais, muitos deles também T.D.A.H., como inteligentes, mas que NÃO GOSTAVAM DE ESTUDAR, para justificar a incapacidade destas crianças inteligentes, mas que não tinham nenhum equilíbrio neurocomportamental, que os permitisse parar ou ter a atenção mínima para aprender, como justificativa para o INSSUCESSO ACADEMICO. Trabalhos de pesquisas mostram, que na VIDA ADULTA, financeiramente e empresarialmente, não se pode esperar muito destes indivíduos, contrariando teorias “achistas”, defendida por algumas pessoas, que não perceberam que neste mundo globalizado, o único caminho que pode levar o ser humano, a colocar-se em condições de igualdade, permitindo-lhes competir numa situação mais favorável, é a educação.

                                  Nos anos 50 e 60 do século passado, famosos anos DOURADOS, os pacientes T.D.A.H. quando obrigados a estudar, passavam por momentos de crueldades, que todos, de memória mais lúcida, com um pequeno esforço, lembram perfeitamente, porem os mais desatentos, certamente esqueceram das famosas PALMATÓRIAS, hoje não encontradas em nenhum museu sobre objetos de tortura medieval, na escola, mas encontradas na memória da maioria dos adultos de hoje, garotos e garotas travessos do passado, que foram vítimas destes processos. Quem passou por estes maus tratos, também devem lembras, dos famosos CAROÇOS DE MILHO, em que eram colocados de joelhos por algum tempo, sob a ameaça de professores e chefes de disciplinas, por alguma travessura do menino T.D.A.H. que naquela época era denominado de menino travesso. Em outras situações, estes meninos de difícil controle a nível familiar e social eram encaminhados, forçosamente, a COLÉGIOS INTERNOS ou REFORMATÓRIOS, para serem contidos pela força, em sistemas educacionais totalitários, hoje em extinção, mas ainda existentes, para satisfação e alivio, de muitos pais, que não sabiam ou não sabem como fazer para educar os seus filhos rebeldes. Até a pratica dos famosos AVIÔES, em que a criança era obrigada, sob ameaça, a ficar de braços abertos segurando por algum tempo, livros pesados, provocando grande agonia a estas criança, que ao passar por esta situação, dificilmente esqueceu deste processo de tortura.

                     Naquela época, os pais destas crianças, mostravam-se ansiosos com a chegada do momento do filho alistar-se no exército, pois ali estava a chance de ir a forra de suas travessuras e passar para os coronéis a responsabilidade de contenção do adolescente, que agora vai ter que se enquadrar ou vai para o CHILINDRÓ, e lavar os cavalos dos coronéis, amansadores de cavalos e de pacientes T.D.A.H. Isto era a vingança de todos. Quando o menino retornava do exército, estava um homem pronto para continuar a vida, pois os amassos sofridos no exército teriam sido benéficos, para enquadrá-lo e torná-lo submisso e sem educação, mas contido numa camisa de força.

                        Quando este assunto tornou-se um dos objetivos dos nossos BOLETINS ELETRÔNICOS, nós já tinhamos motivos suficientes para justificar a sua publicação, pois no dia a dia do nosso consultório, bem como mostra as pesquisas recentes apontando neste sentido, onde diariamente mães e pais preocupados com o quadro que evoluiu seu filho, não tratado em tempo hábil, mostram-se constrangido por não terem ouvido um outro profissional antes de tomar a decisão equivocada de não aceitar o tratamento, a maioria das vezes, por puro preconceito. Este fato, que não colabora em nada com a qualidade de vida do paciente, deve ser combatido com veemência, pelos profissionais envolvidos com o diagnóstico, tratamento e divulgação do T.D.A.H. e que tem consciência destes fatos.

                             Temos também que entender, que vez por outra ouvimos uma série de pronunciamentos, sem nenhuma comprovação científica, em relação a tratamentos alternativos para o T.D.A.H. e suas co-morbidades. Até profissionais, que chegam a mídia, e expressão o seu parecer em relação ao T.D.A.H., de forma empírica, sem nenhuma base científica. Outras vezes, emitem pareceres sobre transtorno, dizendo-se portador do mesmo e se vangloriando disto, como se ter o T.D.A.H. fosse uma coisa boa. Na realidade, ter o transtorno, não impossibilita o individuo de conseguir evoluir na vida de forma satisfatória, principalmente os pacientes tratados em momento adequado, contudo chegar ao consultório, precocemente, é ainda um grande desafio, principalmente em um país que investe de forma inadequada na saúde e educação, com programas, a maioria das vezes ineficazes e sem o menor conhecimento sobre o T.D.A.H. que representa um dos maiores motivos de evasão escolar e todas conseqüências relacionadas a evasão, que vamos, em outro momento, quando falamos sobra as co-morbidades, que serão, sem dúvidas um dos assuntos abordados neste site, que trará grandes esclarecimentos a todos.

                             Da mesma forma, que pais, profissionais de saúde mental e de saúde de uma forma geral, necessitam conhecer melhor o T.D.A.H, os PROFESSORES, EDUCADORES E PEDAGOGOS, devem receber orientação sobre o assunto em sua formação, para que possam ser um aliado importantíssimo, ao nosso lado, ao lado do aluno e ao lado da família deste aluno, objetivos principais de nosso trabalho, sendo, o principal aliado no diagnóstico e tratamento do paciente T.D.A.H, o PROFESSOR, que lida no dia a dia com o aluno e tem como pensar no T.D.A.H. e encaminhar este aluno, o mais precocemente ao médico, que compõe a equipe INTERDISCIPLINAR, para que se confirme o diagnóstico do T.D.A.H e suas CO-MORBIDADES e instale o protocolo de tratamento deste paciente, mesmo sabendo da cronicidade do transtorno, mas se abordado corretamente, o resultado final deverá ser bem diferente do paciente não tratado.                        

                             Na realidade, estamos falando do preconceito específico, porem todo preconceito trata-se de uma forma mesquinha e pequena de se pensa, que deve ser combatido.       

                        Trabalhos publicados recentemente, pelo Dr BIEDERMAN e colaboradores, mostram dados estatísticos, que comprovam o que estamos colocando para sua análise, que não devem ser subestimados. Ao analisar a incidência de COMORBIDADES nos Pacientes T.D.A.H. concluiu-se que cerca de 51% dos pacientes, CRIANÇAS, chegam ao consultório com pelo menos mais um diagnóstico que afeta a saúde mental e 77% dos adultos apresentam co-morbidades, ao procurarem serviços médicos qualificados. Estes fatos vão de encontro, ao que aqui se propõe, que é alertar para um dos fatores, que mais colaboram para a evolução do paciente para uma CO-MORBIDADE, que é, sem dúvidas o PRECONCEITO. Pesquisas em outros serviços mostram resultados semelhantes, como o SERVIÇO DE PSIQUIATRIA DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DO RIO DE JANEIRO, coordenado pelo Dr FABIO BARBIRATO, que em seus pronunciamentos em congressos, tem colocado que CO-MORBIDADE EM T.D.A.H., na criança e adolescência, é REGRA e não EXCEÇÃO.

                                 Com isto entendemos, que ao retardar o tratamento do paciente portador de T.D.A.H., estamos expondo o paciente ao risco de ter o seu quadro agravado e evoluir para CO-MORBIDADES, que muitas vezes são mais graves que o próprio T.D.A.H.                                           

                             É muito freqüente, que por absoluta falta de conhecimento, e por uma OVER-DOSE de preconceito, estas crianças sejam encaminhadas para profissionais que não só não conhecem o T.D.A.H, mas também tentam resolver ou tratar estes pacientes de forma totalmente errada, não seguindo as diretrizes preconizadas pelo M.T.A., o que muitas vezes agrava o quadro do paciente.                          

                           Admitimos, que o PRECONCEITO nas pessoas mais esclarecidas, seja mais por MEDO DO RÓTULO ( T.D.A.H.), esquecendo-se estas pessoas, que estes pacientes já estão rotulados, e o que se propõe com o tratamento é retirar o RÓTULO e o ESTIGMA dos mesmos.

 

Irineu Dias

Clínica Médica

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