Transtornos Ansiosos Ou Transtornos De Ansiedade

 

O Que É Ansiedade?

 

Etimologicamente a ansiedade significa aflição ou angustia. Porém a ansiedade, sob o ponto de vista fisiológico, é um mecanismo biologicamente programado, necessário e benéfico, que nos ajuda à sobreviver e nos defender, desde que seja uma resposta de proteção, como feed-back, que prepara o organismo para atacar ou defender de um perigo percebido, seja ele real ou não.

A questão de ser ou não patológico é dimensional, pois sem a ansiedade, não teremos mecanismos de defesa equilibrados. Todos nós um dia experimentamos algum grau de ansiedade em diferentes situações, como as manifestadas por taquicardia e palidez, diante de uma ameaça física, ou mãos geladas em dias de provas.

Diante da percepção de elementos que ameaçam o organismo, o sistema nervoso AUTÔNOMO SIMPÁTICO, que atua em defesa do organismo, libera catecolaminas, ADRENALINA E NORADRENALINA, que são neurotransmissores, responsáveis por alterações fisiológicas, que viabilizam respostas de luta ou fuga, com aumento do aporte de sangue à área cardíaca, com isto desconforto torácico, seguido de vasoconstrição dos microvasos epiteliais, vasoconstrição gastrointestinal, aumento da função respiratória, estimulação das glândulas sudoríparas e dilatação das pupilas.

Isto permite que as catecolaminas circulem pelo organismo, numa velocidade acima da velocidade basal, mantendo o sistema nervoso SIMPÁTICO, informado da permanência do perigo, mantendo a sua produção aumentada até que o ciclo seja interrompido. Esta interrupção ocorre por destruição das catecolaminas, por substâncias enzimáticas encontradas no organismo, que atuam por interferência das atividades do sistema nervoso AUTÔNOMO PARASSIMPÁTICO, que ativado atua em oposição ao sistema nervoso SIMPÁTICO, como dispositivo interno de proteção  ao equilíbrio do organismo.

Estes mecanismos de ação e inibição, através do sistema nervoso SIMPÁTICO e PARASSIMPÁTICO, constitui o que chamamos de PRINCIPIO DA INIBIÇÃO RECÍPROCA, em que a atividade de um inibe a do outro. Esse mecanismo DE REGULAÇÃO, foi proposto por Joseph Wolpe e col. em que o uso de técnicas de relaxamento muscular, dessensibilização sistemática, treinamento da assertividade e parada do pensamento, formaram a base da terapia comportamental que atualmente são utilizados, combinados ou isolados, como tratamento de escolha dos transtornos psicológicos e psiquiátricos, em especial os transtornos ansiosos.

Desta forma, entendemos que após a atividade simpática, o próprio organismo aciona a atividade parassimpática, impedindo naturalmente que a ansiedade possa aumentar de forma descontrolada, atingido uma dimensão patológica.

É natural a sensação de inquietação e desconforto generalizado remanescente em vários casos, após o estímulo gerador de ansiedade, isso ocorre devido a resíduos de adrenalina e noradrenalina, que requerem um certo tempo para serem inativados no organismo.

Como se percebe, se a ansiedade é limitadora deve ser tratada. Porem não podemos zerar a ansiedade, pois ficaremos desprovidos de mecanismos de defesa.

Temos sim que apreendermos a lidar com a ansiedade, evitando uma dimensão patológica, que inviabilize a harmonia psicossomática.

 

 

Tipos De Transtornos De Ansiedade

 

Fobias Específicas:

 

Na realidade o medo é um mecanismo normal, quando evidenciado diante de uma situação de perigo, porem quando atinge um caráter desadaptativo e  desproporcional, tomando caráter de uma psicopatologia, tornando-se um transtorno incapacitante e limitativo, É ANORMAL. Muitas pessoas se mostram temerosos diante de determinadas circunstâncias, sem contudo caracterizar um quadro fóbico. Se faz necessário uma série de características, mencionadas pelo manual estatístico e diagnóstico de saúde mental-DSM-IV, para caracterizar o transtorno, como fóbico especifico.

 

Dentre as características temos:

a) Medo acentuado e persistente, excessivo e irracional, revelado pela presença de um objeto ou uma situação fóbica. ( Ex. voar, alturas, animais, tomar uma injeção, ver sangue,etc.)

b) A exposição ao estímulo fóbico provoca, quase que inevitavelmente, uma resposta imediata de ansiedade, que pode assumir a forma de um Ataque de Pânico, ligado a exposição à mesma. Em crianças, pode ser expressa por choro, ataque de raiva, comportamento aderente,etc.

c) O indivíduo(não é válido para crianças), reconhece haver exagero ou irracionalidade.

d) A situação fóbica é evitada ou suportada com intensa ansiedade ou sofrimento.

e) A antecipação ansiosa, a esquiva ou o sofrimento na situação temida, interfere significativamente no seu funcionamento global, com dificuldades acadêmicas, no relacionamento social ou sofrimento acentuado em ter a fobia.

f) A duração mínima em indivíduos com menos de 18 anos é de menos de 06 meses.

g) A ansiedade, os ataques de pânicos ou a esquiva fóbica associados com o objetos ou situação específica, não são mais explicados por outro transtorno mental, como o TOC( Transtorno Obsessivo-Compulsivo), T.E.P.T.(TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMA), T.A.S.(Transtorno de Ansiedade de Separação), Transtorno de Pânico com Agorafobia , Agorafobia sem Transtorno de Pânico e Fobia Social.

 

Fobia Social Ou Transtorno De Ansiedade Social.

 

O que é fobia social ?

É um transtorno caracterizado pelo medo excessivo de ser foco da atenção de outras pessoas e, nessa circunstancia, fazer algo ridículo ou humilhante.

 

É normal ficar ansioso quando somos objetos de atenção de outras pessoas, particularmente desconhecidos ?

 

Normalmente, todas pessoas apresentam um certo grau de ansiedade, e isto é benéfico, pois esta ansiedade é que nos permite manter uma vigilância constante em relação ao ambiente em que vivemos, funcionando com um regulador de nossa atenção, no contexto da relação do homem, sob o ponto de vista sócio-ambiental e a sua relação inter-pessoal.

Entendemos também, ser normal, termos um aumento de ansiedade em situações de interação social, principalmente quando estamos diante do novo, como quando apresentados a desconhecidos, quando somos foco das atenções, como apresentação pública, etc. Nesta situação, o aumento da ansiedade o aumento da ansiedade é considerado normal e apresenta as seguintes características:

Ø           A intensidade varia de pessoa para pessoa;

Ø           Não leva as pessoas a evitarem estas situações;

Ø           Não acarreta prejuízos significativos;

Ø           Não se associa a outras doenças.   

 

Como posso saber quando esse medo é excessivo ?

O paciente fóbico social apresenta um medo exagerado da interação com outras pessoas e vai evitar as situações de exposição social, mesmo sofrendo conseqüências sérias. Caso não consiga evitar, sofrerá grande desconforto.

Neste caso sofrerá o que chamamos de ANSIEDADE ANTECIPATÓRIA, isto é, um aumento significativo da ansiedade no período que antecede as situações de exposição social.

Como exemplo, citamos o caso de um paciente do sexo masculino, que apesar de professor universitário, aos 40 anos nunca havia namorado, porque em nenhum momento em sua vida conseguiu abordar uma pessoa do sexo oposto, mesmo que houvesse oportunidade para isto, porem lhe faltava coragem suficiente para enfrentar o sexo oposto. Submetido a tratamento medicamentoso e a terapia cognitivo comportamental, um ano após o inicio do tratamento, retornou ao consultório, acompanhado de uma linda mulher grávida de dois meses.

 

O que aconteceria se este paciente fosse obrigado a se expor enfrentando a situação, sem ser submetido ao tratamento proposto, tendo como ponto de sustentação a medicina baseada em evidencias ?

Certamente, esse paciente apresentaria sintomas de ansiedade, acompanhado de sintomas físicos, como: Taquicardia, tremores, sudorese, empalidecimento, palpitação, sensação de desmaio, desconforto abdominal, náuseas, formigamento pelo corpo e outros sintomas, e não conseguiria estabelecer um vínculo com a pessoa à que foi exposto.

 

Então, neste caso o medo central é o enfrentamento ao sexo oposto ?

Ø           Falar em público;

Ø           Conversar com estranhos;

Ø           Comer em público;

Ø           Levar bronca na frente dos outros;

Ø           Conversar com autoridades;

Ø           Usar banheiro público;

Ø           Ficar nu em público;

Ø           Conversar ao telefone;

Ø           Ser observado;

Ø           Assinar em público;

Ø           Conversar com o sexo oposto.

 

Quando as pessoas apresentam muitos desses medos, denominamos de Fobia Social Generalizada, que é a forma mais comum. Aqueles que apresentam apenas uma ou outra forma de fobia são chamados de Fobia Social Restrita. Apesar de ser um transtorno com prevalência na população geral em torno de 7 % , a Fobia Social não é vista como um transtorno, mesmo diante do grave comprometimento social e comportamental, produzido pelo transtorno. Isto faz-nos lembrar, que muitos e muitos anos, serão necessários para que a área de saúde entenda e admita o Transtorno de Fobia Social como uma patologia incapacitante. Imaginem se dependermos da classe leiga!

A etiologia da Fobia Social, como os demais transtornos neuro-comportamentais, é de origem GENÉTICA, com influencia de fatores sócio-ambientais, culturais e psicológicas.

 

Estudos mostram que a fobia social generalizada, que é a forma mais comum, provoca sérios prejuízos aos portadores desse transtorno, quando não tratados de forma precoce. Dentre os prejuízos mais freqüentes temos:

Ø           Tem menor escolaridade;

Ø           Casam-se menos;

Ø           Têm menores rendimentos;

Ø           Suicidam mais;

Ø           Depressão com maior freqüência;

Ø           Mais propensos a abuso de substancias;

Ø           Mais abuso e dependência de álcool;

Ø           Maior incidência de transtorno de pânico, que muitas vezes os levam a procurar o tratamento;

Ø           Evasão escolar por medo de se expor.

 

A Fobia Social Generalizada, tem início por volta dos 06 aos 10 anos de idade, atingindo o seu pico máximo na adolescência e  tendo uma queda importante na terceira década de vida, porém se não diagnosticado, permanecerá por toda vida, provocando sérias dificuldades no funcionamento global do indivíduo.

Como a fobia social se inicia na infância, e é neste momento que aprendemos uma série de regras de interação social, o individuo além de enfrentar o medo, terá que enfrentar a falta de habilidade nas interações sociais, onde a leitura social ficará comprometida. Como os principais códigos de “PAQUERA” são desenvolvidos logo a seguir na adolescência, o indivíduo ficará com sérios comprometimentos comportamentais.  Não diagnosticado e tratado precocemente, o paciente chega à vida adulta com fobia social, e terá dificuldades na aproximação com o sexo oposto, sem saber paquerar, sendo um excluído do sistema de relacionamento afetivo.

Todo este processo cria um terreno propicio a desenvolver a drogadição, pois estes adolescentes experimentarão o uso do álcool e o abuso se substâncias, como forma de vencer as suas dificuldades fóbicas. Nesta faixa etária ( entre 08 e 18 anos ), é que estão se formando as vias da dependência química no sistema nervoso central, através de uma sinaptogênese especifica, o que os vulnerabilizarão à DEPÊNDECIA QUÏIMICA.  

A diferença mais importante entre a Fobia Social e o Transtorno de Pânico, é que na Fobia Social os pacientes sentem-se mal só nas situações descritas anteriormente, enquanto no Transtorno de Pânico, os pacientes passam mal sem motivo, em qualquer lugar ( ATAQUE DE PÂNICO ). Outro fato importante, é que no Transtorno de Pânico, os pacientes desenvolvem o medo de lugares, onde a saída seja difícil e os mesmos pensam que poderão passar mal e não serão socorridos, como lugares cheios de gente. Isso não ocorre com pacientes que sofrem de Fobia Social, para ao quais a maior preocupação é ser Foco da Atenção das pessoas.

O tratamento da Fobia Social deve começar com um passo importante, que é convencer o paciente de que a fobia social é de uma doença. Isto em geral não é muito difícil, pois o sofrimento é tão significativo, que faz com que os pacientes recebam bem esta possibilidade de ajuda, o que permite remover o ponto mais resistente que é o PRECONCEITO, VELHO ADVERSÁRIO no tratamento dos transtornos neurobiológicos.

Uma outra questão é explicar para o paciente que existe tratamento porá este transtorno, deixando bem claro que o tratamento é longo e envolve o uso de medicação e psicoterapia, de preferência a Terapia Cognitivo-Comportamental, que é a preconizada pelas pesquisas cientificas, tendo respaldo na medicina baseada em evidencias.

Dessa forma a medicação vai minimizar os sintomas da ansiedade e a Terapia Cognitivo-Comportamental é fundamental para ajudar o paciente a se expor às situações de temidas e para treiná-lo em certas situações.

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