TDAH X TRAUMA

 

            O trauma é atualmente a 3ª causa morte no mundo, só perdendo para as doenças cardiovasculares, que é a 1ª causa morte, e o câncer que é a 2ª causa morte no mundo. Porém no Brasil a situação é mais grave, pois o trauma fica em 2º lugar nas causas mortes, superando até o câncer, com 130 mil mortes por ano ou 10.800 (dez mil e oitocentas) mortes por mês ou 360 mortes por dia ou 15 mortes por hora ou ainda 2,5 mortes para cada 10 minutos.

            Trabalhos do Dr. Samir Rasslam, professor titular de cirurgia de emergência do departamento de cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas, da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, mostrou que cerca de 40% desses pacientes, são vítimas de acidentes provocados por  veículos automotores, e a grande maioria das vítimas são jovens, ultrapassando 70% do total das vítimas.

            Para ilustrar este quadro assustador recorremos às estatísticas nos Estados Unidos da América, onde acontecem em média, 60 milhões de traumatismos por ano. Desse total, 30 milhões precisam de atendimento médico, sendo que 10 a 15% são internados, resultando em 150 mil mortes por ano e em 300 mil vítimas com seqüelas definitivas. Obviamente que temos que levar em consideração que nos Estados Unidos a população é 30% maior que a do Brasil, que tratá-se de um país industrializado com um trânsito maior  que o nosso e onde a maioria das pessoas possuem veículos auto-motores, mas mesmo assim a situação também é estarrecedora como a nossa, apesar de não termos uma estatística compatível.

            Se contabilizarmos os custos do trauma, veremos que em traumas leves, moderados e severos, os custos giram em torno de 10 mil, 100 mil e 600 mil dólares respectivamente, per capta segundo o professor Dr. Dário Birolini, presidente do comitê do trauma do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

            Estes dados são suficientes para imaginarmos o quanto representa economicamente o trauma para às famílias, para à sociedade e para o governo, isto sem levar em consideração o sofrimento emocional dos familiares e os desdobramentos que isto traz para as pessoas devido ao envolvimento que todos são submetidos.

            Nos Estados Unidos da América, as escolas médicas começaram a ter uma formação específica para o tratamento de emergência e trauma na década de 70, porém no Brasil isto só aconteceu nas décadas de 80 e 90, sendo que hoje, contamos com outras importantes em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, porém ainda estamos muito distantes de termos uma estrutura capaz de satisfazer à demanda, conforme pronunciamento do professor Dr. Dário Birolini, dizendo que com a criação de cursos de atendimento avançado ao trauma e o curso de atendimento pré-hospitalar ao trauma, a situação de atendimento ao traumatizado começa a delinear um caminho promissor, sendo um bom começo.

            Entendemos perfeitamente que tudo isto não significa a solução do problema grave que é o trauma da mesma forma que tudo isto que está sendo desenvolvido é de vital importância para que possamos salvar vidas, porém em medicina a prevenção é como arma poderosíssima, de custo baixo e de eficácia incontestável, mas nem sempre utilizada.

            Mas, o que tem a ver o trauma com o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) se você prestar atenção no que vamos relatar, você verá que tem tudo a ver!

            Quando procuramos conhecer os fatores etiológicos desta “guerra surda” e “absurda”, veremos que muito há de se aprender, principalmente quando trata-se de trauma no Brasil, onde as características são peculiares.

            Primeiramente devemos entender que no caso específico da violência urbana, onde milhares de pacientes são vítimas de trauma produzido por arma de fogo e outros tipos menos freqüentes de armas, temos o descalabro social, o descaso do poder público e a imagem que o poder constituído passa para a sociedade, é um estímulo a marginalização, que é o caminho a ser percorrido, quase que inevitavelmente, pelas pessoas das classes sociais menos favorecidas, longe de terem uma educação eficiente e outros meios de terem uma qualidade de vida digna.

            Logicamente que outros fatores devem ser analisados, como o tipo de rodovias que temos, onde pistas danificadas, pontes que avançam sobre a pista, com suas cabeceira no sentido da mão, destruídas por motoristas que no desespero tentam salvar-se a qualquer custo, sinalização totalmente precária, estradas mal construídas, etc, tudo isto com a participação e conivência do poder público, que só é eficiente na criação de impostos absurdos, pedágios e mais pedágios, multas fantasmas e fraudulentas, e outras formas de extorquir o cidadão indefeso, diante deste verdadeiro absurdo que vivemos.

            Apesar de tudo que foi exposto, não teríamos esta vergonhosa e inaceitável situação, que é a incidência do trauma e suas complicações, se não tivéssemos um dos fatores etiológicos, pouco conhecido, mas de grandiosa responsabilidade no trauma que é o paciente TDAH.

            O TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), que incide em aproximadamente 10% da população geral e em 7% da população de 0(zero) a 18 anos, tem que ser levado em consideração e merece estudos e pesquisas, porque pessoas portadoras do TDAH, seja tipos predominante desatento hiperativo /  impulsivos, combinados ou inespecíficos, têm como características e sintomas principais a desatenção ou a desatenção e a hiperatividade / impulsividade, características que não combinam com atividades que a direção de veículos automotores requer, onde atenção, prudência, paciência, racionalidade, direção defensiva, etc, são prioritárias para que se possa exercer uma profissão de tamanha responsabilidade onde qualquer erro pode ser fatal.

            Sabemos que estatísticas no Estados Unidos, mostram que o TDAH representa a maioria absoluta dos acidentes, onde são os motoristas os culpados. Sabemos ainda que nos Estados unidos, o paciente diagnosticado portador do TDAH, só exerce a profissão de condutor de veículos automotores, se forem tratados e apresentarem autorização de profissionais de saúde que os avaliem, para saber de suas condições de exercer estas profissões. Sabendo ainda que o TDAH tem dificuldades para concentrar-se, devido a baixa concentração de dopamina, neurotransmissor responsável pela atenção sustentada nas sinapses das vias dopaminérgicas do cérebro levando a desatenção, distratibilidade e distração e que estes pacientes apresentam uma baixa concentração de noradrenalina (neurotransmissor responsável pelo equilíbrio cognitivo comportamental), nas sinapses das vias noradrenérgicas do cérebro, levando a uma hiperatividade e impulsividade, que fazem destes pacientes TDAH indivíduos ávidos por mecanismos que os conectam  ou os mantenham atentos, como os esporte radicais que promovem uma verdadeira “OVERDOSE” de adrenalina lançada em sua circulação sangüínea, que por via metabólica diferente, aumenta a concentração da dopamina nas sinapses, conectando-os, bem como o uso de substâncias estimulantes como o álcool, responsável pela maior parte dos acidentes automotores, começamos a entender a relação TDAH X Trauma.

            Não podemos deixar de lado , um dos grandes responsáveis pelos acidentes, principalmente com os motoristas “chamados profissionais” no Brasil, onde não temos estatísticas mas alguns estudos apontam uma porcentagem alta, de motoristas que usam anfetaminas denominados no meio, de arrebites, que estimulam a atenção, inicialmente o alertando, inibindo o sono dando uma sensação de segurança porém com o tempo, passa o efeito estimulante e estes motoristas apresentam cansaço, confusão mental e sonolência ficando vulnerável à uma série de condições que provocam acidentes absurdos.

            Com isto começamos a entender melhor as etiologias do trauma principalmente com veículos automotores, onde TDAH, não tratado corretamente, usam o volante para ser auto-medicar, imprimindo velocidade e manobras radicais, não compatíveis com a segurança necessária para conduzir veículos auto-motores. Outras vezes, por interesse da própria empresa, em entregar um produto perecível à longa distância submete estes motoristas a situações que os induzem ao uso destes estimulantes, que os transformam em verdadeiros “homens bombas”, podendo explodir a qualquer momento ou torná-los dependentes destas drogas, com sérios comprometimentos em sua saúde.

            Temos que pesquisar estes fatos, para que possamos, juntos às medidas curativas, empreendermos uma batalha com informações, debates, melhor controle dos profissionais motoristas e exames específicos para TDAH, para mudar esta história drástica do trauma em nosso país.

            Outras medidas preventivas devem ser instituídas, como controle e fiscalização de menores sem habilitação que dirigem, burlando a lei, com a conivência, na maioria das vezes, de seus responsáveis, inclusão no currículo à nível de 1º e 2º segmento das escolas, de matéria específica sobre educação para o trânsito, leis rigorosas e que sejam cumpridas para aqueles que tentarem burla-las, envolvimento da sociedade no compromisso de combater o trauma e outras medidas eficientes.

            Enfrentar uma estrada no Brasil é mais arriscado do que participar no “fronte” de uma guerra, pois para sobrevivermos teremos que nos preparar para uma direção superdefensiva, contar com a sorte, dirigir pelo outro motorista e evitar a estrada, como se evita uma “linha de fogo”.

            O envolvimento do paciente TDAH no trauma, como vítima ou como responsável pelo acidente, explica parcialmente os riscos que estamos expostos nas estradas do Brasil, mas de uma forma geral entendemos porque o trauma mata mais do que o câncer e futuramente, se medidas efetivas não forem tomadas, poderá ser bem mais grave.

            Algo terá que ser feito com urgência, pois é crescente este tipo de violência, sem a presença de armas de fogo, mas com “bombas humanas” prestes a explodirem, sem fazer nenhum ruído aparentemente, cursando no silêncio, onde se somados os gemidos, dos “choros da dor” dos que ficam mutilados física e psicologicamente, pelas seqüelas e pelos enlutados, formariam a “sinfonia do sofrimento”, pelas vidas que vão e pelas vidas que ficam nesta verdadeira indústria da morte e da mutilação, pois para cada morto, ficam números superiores de mutilados e portadores de seqüelas definitivas.

            TDAH não tratado, dificilmente escapará do trauma.

Irineu Dias

Clínica Médica

Voltar