TDAH X TEMPO

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

 

            O Dr. Russell A. Barkley, após analisar os trabalhos do Dr. Bronowiski, argumenta que nossa habilidade de retardar respostas nos dá a capacidade de manter um evento ativamente vivo em nossa mente por algum tempo após ele ter ocorrido. Em outras palavras, somos capazes de prolongar o evento ou a informação que chega em nosso cérebro através da memória de curto prazo, permitindo pensar sobre o evento, estudá-lo cuidadosamente e compará-lo com nossa história pessoal. Estas referências do passado nos guiam para o entendimento e para respostas aos eventos do momento.

            Assim, nossos aprendizados do passado informam nosso comportamento atual. Aprendemos com nossos erros e sucessos de forma mais eficiente que outras espécies.

            Segundo Dr. Bronowiski, ao pensarmos sobre nosso passado criamos Futuros Hipotéticos. Supondo o que está por acontecer a seguir pensamos sobre o nosso passado e utilizamos para desenvolver idéias sobre o futuro. Assim nos preparamos melhor para eventos previsíveis. Obviamente nossas suposições, nem sempre estarão certas, mas faremos sempre suposições melhor instruídas do que simplesmente pensar no futuro de forma geral. Usamos assim, nosso senso do passado para criar um senso de futuro. Aliando à habilidade de lembrar de imagens passadas, vem nossa capacidade para manifestá-las e combiná-las, o que forma nossa imaginação. Lembrando passado e sentindo o futuro, poderemos dividir o senso de futuro com outras que raciocinam conosco, fazendo planos com outros e promessas a eles, usando o tempo como referência, para fazer coisas que nenhuma outra espécie pode fazer.

            Referindo-se para trás (passado) e para frente (futuro), cria-se uma janela no tempo, que quando acordados estamos quase que continuamente atentos a essa janela de tempo em movimento em nossa consciência.

            Do senso de eventos imediatamente passados, estamos continuamente inferindo o que pode acontecer no futuro imediato. Fazemos isto quase sem esforço e julgamos óbvio.

            No TDAH ocorre uma incapacidade de inibição de comportamento e de esperar para responder, como sugere então, a teoria de Bronowiski afirma que pessoas TDAH deveriam exibir um tempo mais limitado do passado e, como resultado do futuro. Sua janela mental no tempo deveria ser mais estreita, basta ter vivido com um TDAH para chegar a esta conclusão, permitindo que pais de crianças TDAH digam que estes parecem não aprender com os erros do passado, bem como respondem rapidamente para se referir às experiências passadas e sem considerar o que estas experiências poderiam ensiná-los sobre os eventos presentes. Em resumo, isto significa que crianças e adultos com TDAH possuem uma visão míope do futuro. Eles lidam bem com os eventos que estão à mão, e não com aqueles que encontram-se muito a frente. Podemos dizer que são cegos para o tempo ou que apresentam algum tipo de negligência temporal, estando menos cautelosos e atentos a duração do tempo e do futuro que encontra-se na sua frente.

            Por não percebemos os eventos que aproximam-se, os pacientes TDAH estão menos preparados para o futuro, seguindo a vida num verdadeiro ziguezague, de crise em crise. Quando ocorre uma catástrofe, são surpreendidas de guarda baixa, reagindo de acordo, pois são vítimas do momento.

            O bom disto tudo é que não parecem tão limitadas pelo medo do futuro como muito de nós, o que nos leva a imaginar a sua inocência quase infantil, sua natureza espontânea e sua atitude inconseqüente sobre o momento.

             Os portadores de TDAH podem se dar bem em situações nas quais outros ficaram para trás, basta que estejam motivados, pois a vida para pessoas TDAH pode se tornar mais excitante se vista como um resultado.

            A falta de previdência pode ter conseqüências negativas e crônicas podendo os efeitos sociais serem devastadores, com promessas quebradas, encontros desmarcados e prazeres perdidos, comprometendo imediatamente o julgamento negativo e imperdoável de outros. Em nossa sociedade a confiança é uma das características mais importantes em adultos responsáveis

            Adultos TDAH com história infantil de hiperatividade, dificuldade para controlar dinheiro, organizar-se em casa, controlar horários, têm dificuldades em trabalhar independentemente, seguindo em ritmo bem mais lento em direção a seu status social e profissional, devido ao seu senso diminuído de tempo e futuro.

            Em decorrência da incapacidade de inibir o comportamento, devido ao déficit neurológico, pacientes, com TDAH não vêem o que apresenta-se à sua frente, bem como à frente dos outros, não tendo uma leitura social que permita um bom desempenho e culpá-los por isto é como culpar um cego por não enxergar ou com surdo por não ouvir, é ridículo e não serve como propósito social construtivo, apesar de ser exatamente o que a sociedade faz, dizendo que é pretexto para não assumir a sua responsabilidade, quando um TDAH apresenta um comportamento que o compromete, rotulando-os de pessoas descuidadas, negligentes, inseguras, aventureiras, imaturas, mal educadas, sendo muitas vezes julgados por sua aparência descuidada e comportamento inadequado com punições severas.

            Por isto, portadores do TDAH, ao atingir a adolescência ou a fase adulta, são freqüentemente desmoralizados, começando a adotar uma visão da sociedade em si próprio, julgando-se culpados por falhas, como os outros fazem. Esse senso de desempenho abaixo do nível de seu quociente de inteligência e de julgarem fracassados para consigo mesmo e para com sua família, pode ser  tão grave em adultos com TDAH, que podem requerer outros  tratamentos psicológicos, além daquele necessário para lidar com os sintomas isolado do seu TDAH.

            O senso alterado do tempo no TDAH, tem vários efeitos, primeiramente sentem que o tempo passa muito mas vagarosamente do que passa na realidade. Isto significa que a maioria das coisas parece levar mais tempo para passar do que esperam.

            O que é absolutamente frustrante, não sendo surpresa que pessoas TDAH sejam muito mais impacientes em determinadas situações, pois, sem senso de futuro é difícil protelar a gratificação. Obviamente que pessoas TDAH, sem senso de futuro, provavelmente não escolherão na vida, caminhos que envolvêm sacrifico imediato para recompensa à longo prazo, como educação superior e poupar dinheiro. Porém não existem evidências de que o senso diminuído de futuro faz com que portadores de TDAH sejam menos conscientes sobre a saúde, do que outros pessoas.

            As pessoas normais pagam um preço pelo senso de tempo que acompanha a sua existência limitada e eventual morte, porém pessoas com TDAH não devem ter o mesmo senso de sua própria mortalidade, como as demais pessoas o têm .

            Considerando as futuras conseqüências frente a qualquer comportamento, os indivíduos TDAH seriam mais suscetíveis do que outros, em envolver-se em maus hábitos, como comer compulsivamente, não fazer exercícios físicos, fumar, ingerir bebidas alcoólicas em excesso, usar drogas ilegais e dirigir sem cuidado, isto se verificou em estudos de seguimentos de adolescentes e adultos jovens com TDAH. Da mesma forma, estes estudos mostraram que os pacientes TDAH de maior risco para receber multas por velocidade e cometer acidentes de transito ao dirigir, do que outros da mesma faixa etária, porém não portadores do TDAH. Também os mesmos estudos do Dr. Barkley, PhD em neuropsicologia da University of Massachsetts Medical Center, mostram que adolescentes TDAH são sexualmente ativos mais precocemente que adolescentes normais, bem como são os que menos usam métodos anticoncepcionais durante relações sexuais, com isto apresentam maior probabilidade de engravidar 40% da gravidez precoce e 15% das doenças sexualmente transmissíveis.

            Todos estes riscos dão noção do que representa a incapacidade de dar o devido valor ao diagnóstico precoce e tratamento adequado aos portadores do TDAH.

Irineu Dias

Clínica Médica

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